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Marquês de Condorcet (1743-1794)

 

Educação; para onde nos mandam.

O relatório da OCDE salienta como especialmente positivas as apostas na educação profissionalmente qualificante e na valorização e qualificação da carreira docente.

Por estes tempos, assiste-se à importação das directrizes emanadas pela OCDE, implicando mudanças profundas no ensino em Portugal.

Um olhar mais atento pelas estatísticas e orientações do estudo da OCDE faz ressaltar uma cultura organizada segundo uma lógica marcadamente hierárquica. Os uns mandam e decidem. Os outros obedecem. Estes ideais têm correspondência na nossa política educativa com normativos infalíveis bem urdidos por mentes brilhantes.

Assim, os que mandam escudam-se no seu brilhantismo douto e no sucesso hierárquico, ostentando tiques de prepotência. Aos que obedecem, pedem que executem e sigam procedimentos, se enquadrem em quadros rígidos erigidos e magicamente formulados para satisfazerem um ditadura de estatísticas. Foi segundo esta perspectiva que surgiram a divisão dos professores entre titulares e professores, a avaliação pedagógica com grelhas asfixiantes carregadas de parâmetros inalcançáveis com excelência. E para que nada escape ao big brother, os itens de avaliação organizacionais ficam sob a tutela do director. Perfeito. Quantas manigâncias para subverter o processo ensino-aprendizagem.

De todo este processo ressalta que o professor é o único que nada sabe, pois sobre ele tudo recai de uma forma prescritiva ou punitiva, colando-lhe a culpa do insucesso dos alunos. Senão vejamos. A ministra emana dogmas e os gabinetes ampliam os seus desejos. Tudo inquestionável. Já os alunos detém conhecimentos e saberes que só darão insucesso por culpa da inoperância e incompetência dos professores.

Foi declarado que o insucesso não existe. Os professores tornaram-se um empecilho e há que dotar as escolas de «técnicos da educação». Mas a verdade é incontornável e o tempo bom conselheiro. Muito diferente preparar os jovens para a vida, do que prepará-los para o mercado de trabalho. Para já, há os que proferem discursos e os que diferem. Há os que verborreiam e os que não os entendem. Alguém anda a falar sozinho.

Da Matemática, com Ron Aharoni, Professor universitário

Segunda-feira, 17 de Novembro de 2008

Ron Aharoni é professor universitário ligado à Matemática. O problema do ensino desta disciplina levou-o a optar por leccioná-la a alunos do 1º ciclo a fim de chegar a algumas conclusões. Passou por Portugal a propósito de um colóquio que a Fundação Gulbenkian está a promover sobre o ensino da Matemática. O Público entrevistou-o e na conversa há verdades que deveriam saltar para a vida…
O QUE É A MATEMÁTICA – «(..) Antes de mais, é preciso perceber que a Matemática é sobre coisas concretas e que a abstracção vem depois. Outro segredo importante é que a Matemática deve ser aprendida por etapas e nenhuma deve ser deixada para trás, porque se isso acontecer não vamos conseguir compreender o que se segue. (…)»
MANUAIS ESCOLARES - «(…) O principal caminho para ensinar os professores é através dos bons manuais escolares. Os manuais que existem vão na direcção errada, porque promovem actividades divertidas e a aprendizagem fica perdida. O problema é que os livros saltam etapas ou seguem teorias modernas. O que é preciso é que os manuais reflictam a Matemática, a sua essência, o que é e não teorias. (…)»
DIVERTIR OU COMPREENDER - «(…) as crianças não precisam de estar divertidas, elas precisam de compreender e só se o fizerem é que aprendem a gostar. A Matemática não tem que ser divertida, mas compreendida. (…)»
TABUADA - «(…) Se cada vez que queremos escrever uma carta tivermos que pensar como é que se juntam as letras... Para a Matemática o raciocínio é o mesmo: é preciso ter automatismos e a tabuada é essencial. Os pais podem ajudar os filhos a aprender, por exemplo, a dizê-la de trás para a frente. (…)»
EXACTIDÃO NAS FORMULAÇÕES - «(…) Outra coisa muito importante e que sempre ensinei aos meus três filhos é: ser preciso nas formulações, dizer correcta e claramente o que se quer dizer, nunca deixar os outros adivinharem o que se quer dizer, mas usar as palavras certas. (…)»
CALCULADORAS - «(…) Calculadoras? Atirem-nas para o lixo! Houve revoluções terríveis na escola e essa foi uma delas. Fazer cálculos é muito importante e não é uma coisa estúpida ou inútil, e que, por isso, se deve recorrer à máquina. Fazer cálculos significa compreender o sistema decimal. Usar uma calculadora na aula de Matemática é como pôr os alunos a conduzir automóveis em vez de correrem na aula de Educação Física. Quando pergunto a um aluno quanto é 10+10 e responde, mas precisa da calculadora para saber quanto é 10+11, então, ele não compreendeu qualquer coisa quando aprendeu, que precisa de saber e não é com o recurso à máquina que aprende. (…)»
PROFESSORES E COMPUTADORES - «(…) Sabemos que o cérebro das crianças é completamente diferente e que trabalha muito rapidamente. Se elas podem aprender com o computador? Todas as tentativas feitas até hoje nesse sentido falharam. Não sei se porque as crianças preferem brincar no computador do que trabalhar... Penso que no 1.º ciclo o contacto com o professor é o mais importante. (…)»

Crónica de Manuel António Pina, Jornal de Notícias

Uma dupla obrigação obriga-me a colocar aqui esta opinião, a de pai, mas sobretudo a de professor.



Quem pode, foge. Muitos sujeitam-se a perder 40% do vencimento. Fogem para a liberdade. Deixam para trás a loucura e o inferno em que se transformaram as escolas. Em algumas escolas, os conselhos executivos ficaram reduzidos a uma pessoa. Há escolas em que se reformaram antecipadamente o PCE e o vice-presidente. Outras em que já não há docentes para leccionar nos CEFs. Nos grupos de recrutamento de Educação Tecnológica, a debandada tem sido geral, havendo já enormes dificuldades em conseguir substitutos nas cíclicas. O mesmo acontece com o grupo de recrutamento de Contabilidade e Economia. Há centenas de professores de Contabilidade e de Economia que optaram por reformas antecipadas, com penalizações de 40% porque preferem ir trabalhar como profissionais liberais ou em empresas de consultadoria. Só não sai quem não pode. Ou porque não consegue suportar os cortes no vencimento ou porque não tem a idade mínima exigida. Conheço pessoalmente dois professores do ensino secundário, com doutoramento, que optaram pela reforma antecipada com penalizações de 30% e 35%. Um deles, com 53 anos de idade e 33 anos de serviço, no 10º escalão, saiu com uma reforma de 1500 euros. O outro, com 58 anos de idade e 35 anos de serviço saiu com 1900 euros. E por que razão saíram? Não aguentam mais a humilhação de serem avaliados por colegas mais novos e com menos habilitações académicas. Não aguentam a quantidade de papelada, reuniões e burocracia. Não conseguem dispor de tempo para ensinar. Fogem porque não aceitam o novo paradigma de escola e professor e não aceitam ser prestadores de cuidados sociais e funcionários administrativos. 'Se não ficasse na história da educação em Portugal como autora do lamentável 'pastiche' de Woody Allen 'Para acabar de vez com o ensino', a actual ministra teria lugar garantido aí e no Guinness por ter causado a maior debandada de que há memória de professores das escolas portuguesas. Segundo o JN de ontem, centenas de professores estão a pedir todos os meses a passagem à reforma, mesmo com enormes penalizações salariais, e esse número tem vindo a mais que duplicar de ano para ano.
Os professores falam de 'desmotivação', de 'frustração', de 'saturação', de 'desconsideração cada vez maior relativamente à profissão', de 'se sentirem a mais' em escolas de cujo léxico desapareceram, como do próprio Estatuto da Carreira Docente, palavras como ensinar e aprender. Algo, convenhamos, um pouco diferente da 'escola de sucesso', do 'passa agora de ano e paga depois', dos milagres estatísticos e dos passarinhos a chilrear sobre que discorrem a ministra e os secretários de Estado sr. Feliz e sr. Contente. Que futuro é possível esperar de uma escola (e de um país) onde os professores se sentem a mais?'
Manuel António Pina

Que futuro para a educação?

Confusos e agitados andam estes tempos. Neste momento, interrogo-me para onde caminha a educação e como percorre ela esse caminho.
Na semana passada, o Diário de Notícias contribuiu com alguma luz ao transcrever a entrevista do nosso primeiro ministro, completando no dossier da educação com um estudo sobre os gastos do governo tanto na escola pública, do ensino básico ao superior, como com os custos dos cursos de formação das novas oportunidades.
Ao confrontar algumas afirmações, não me restaram dúvidas de que a escolaridade obrigatória até ao 12º ano entrará em vigor após as eleições de 2009. Este grande objectivo impõe-se inexoravelmente e, na minha óptica, concordo plenamente. Na verdade, a escola deve procurar a inclusão de todos os jovens e proporcionar-lhes uma matriz educativa que lhes proporcione um conjunto de ferramentas para a sua vida adulta.
Já a celeridade com que o processo avança é que, sinceramente, não me convence, despertando-me duas pequenas notas de apontamento. Senão vejamos.
Primeiro, o primado do economicismo, que norteia quem governa, é asfixiante. Segundo o estudo, um aluno, que frequente os cursos das novas oportunidades, custa três vezes mais do que um aluno universitário. Daqui compreendo a lisura com que se atribuem equivalências e diplomas, a fim de fugir à estatísticas negras que fomos acumulando ao longo de muitos anos. De processos pouco sérios, já Almeida Garrett se lamentava ironicamente: «foge cão que te fazem barão».
Segundo, o processo kafquiano de avaliação que recai sobre os professores, condicionando a sua progressão na carreira com o sucesso de avalição que ele faz dos seus alunos, força à progressão de todos os alunos, ao mesmo tempo que limita ao mínimo os gastos com os incentivos aos professores. É o tempo dos Chicos espertos, ou seja, «matar dois coelhos de uma cajadada»
Torna-se evidente que o governo quer rapidamente diplomar os que ultrapassaram a idade para frequentar a escola. Mas o que se adivinha e me preocupa é a obsessão do ministério em normalizar todos os alunos e em encerrá-los nas escolas, sem que estas estejam preparadas para alunos que rejeitam a instituição escola, não aceitam normas e cultivam atitudes anti-sociais. Já para não falar nos que vêm referenciados com cadastro criminal, não esquecendo também os alunos que, não sabendo qualquer palavra portuguesa, são integrados sem critério algum em niveis de escolaridade desajustados.
É esta precipitação de sucesso por decreto e por coacção que não deixa antever nada de bom para as escolas e muito menos para os professores. A violência é uma das imediatas consequências que se impõe deste caminhar por atalhos. Todavia, outro fenómeno precoce se verifica, é que muitos professores colocados nas cíclicas e que já possuem experiência de ensino abandonam a educação delapidando o futuro próximo de entrada de novos docentes.