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Livro três – Revelações e Regressos (221-294)

A despedida (221-240)

A serpente não é um animal: é um músculo com dentes, uma despernada centopeia com a barriga no meio do pescoço. Como podia Silvestre Vitalício estar de namoros com tão rasteiro animal? […] E explicou-se: aquela cobra não era senão o Tempo. Durante anos ele tinha resistido contra os arremedos da serpente. Esta noite cedera, desistido (223)

O veneno percorreu-lhe antecipadamente as entranhas e o Tempo começou a apodrecer dentro do seu corpo. - O Tempo é um veneno, Mwanito,. Mais eu lembro, menos fico vivo. […] só existe um verdadeiro suicídio: deixar de ter nome, perder entendimento de si e dos outros. Ficar fora do alcance das palavras e das alheias memórias. (224)

É a solidão que mais tememos na morte. (227)

Em criança não nos despedimos dos lugares. Pensamos que voltamos sempre. Acreditamos que nunca é a última vez. (229)

Ao iniciar esta viagem eu deixara de ser criança. Mwanito ficara em Jesusalém, e eu carecia de um novo nome, um novo baptismo. […] pela primeira vez não me bastava ver o mundo. Eu queria, agora, ver o modo como olhava o mundo. (230)

[Marta] Ao participar daquele fingimento de fim de mundo, ela aprendera a morte sem luto, a partida sem despedida. (236)

- Você, meu filho, nasceu com um coração grande. Com esse coração, você não é capaz de odiar. E este mundo, para ser amado, precisa de muito ódio. […] Jesusalém lhe dera o esquecimento. O veneno da serpente lhe trouxera o tempo. A cidade lhe causara cegueira. (237)

Uma bala vem à baila (241-252)

A verdade era: a mulher me invadira como o Sol enche as nossas casas. Não havia modo de afastar ou impedir essa inundação, não havia cortinado que fechasse aquela luminosidade. (244)

Sem que ninguém mais dessa conta, as palavras de Vitalício subiam ao céu. Era um céu rasteiro, sem fôlego. Mas era o início de um infinito. (247)

A árvore imóvel (253- 266)

Não foi um continente que engoliu Marcelo. Foram os seus demónios interiores que o devoraram. (254)

A vida só sucede quando deixamos de a entender. […] Nunca me imaginei viajando para África. Agora, não sei como regressar à Europa. Quero voltar para Lisboa, sim, mas sem memória de alguma vez já ter vivido. Não, não me apetece reconhecer nem gente, nem lugares, nem sequer a língua que nos dá acesso aos outros. (254)

se temos de viver na mentira que seja na nossa própria mentira. […] o mundo termina quando já não somos capazes de o amar. […] a vida não foi feita para ser pouca e breve. E o mundo não foi feito para ter medida. […] as palavras podem ser o arco que liga a Morte e a Vida. (255)

a minha única morte foi a de Marcelo. Essa, sim, foi o primeiro desfecho definitivo. Não sei se Marcelo foi o amor da minha vida. Mas foi uma vida inteira de amor. Quem ama, ama para sempre. Nunca faças nada para sempre. Excepto amar. (256)

Dordalma saiu […] para ser olhada e invejada. O vestido era de cegar um mortal e o decote era de fazer um cego ver o céu. […] Era ela toda inteira. Em casa, Dordalma nunca era mais do que cinza, apagada e fria. […] saiu de casa para, vestida para semear devaneios. […] E suspiravam de inveja, as mulheres; de desejo, os homens. Raiavam nas pupilas dos machos as mesmas dilatadas veias que enchem os olhos dos predadores. […] Nessa manhã tua mãe entrou no chapa-cem e espremeu-se ente os homens que enchiam a viatura. (256-257)

A verdade é que, de acordo com as esquivas testemunhas, Dordalma foi arremessada ao solo, entre babas e grunhidos, apetites de feras e raivas de bicho. E ela foi-se afundando na areia como se nada mais protegesse o seu frágil e trémulo corpo. Um por um, os homens serviram-se

[…]

Mais tarde, o teu silêncio, Mwanito, foi a sua defesa contra esse eco recriminador. (257- 260)

Suicídio de mulher casada é o vexame maior para qualquer marido. […] perdida a posse da sua própria vida, ela atirara na cara do teu pai o espectáculo da sua própria morte. (261)

Agora sabes por que razão Ntundi partiu com Kalash […] por que motivo Silvestre temia o vento e a dança das árvores evocando fantasmas. Gora sabes dos motivos de Jesusalém e do exílio dos Venturas fora do mundo. […] Para Silvestre o passado era uma doença e as lembranças um castigo. Ele queria morar no esquecimento. Ele queria viver longe da culpa. (263)

- Nós mulheres. Por que acreditamos tanto, tudo?

- Porque temos medo.

O nosso medo maior é o da solidão. Uma mulher não pode existir sozinha, sob o risco de deixar de ser mulher. Ou se converte, para tranquilidade de todos, numa outra coisa: numa louca, numa velha, numa feiticeira. Ou, como diria Silvestre, numa puta. Tudo menos mulher. (264)

O livro (267- 294)

Desde então, Noci passou a acontecer como a Lua. Visível apenas em estações do mês. E eu passei a suceder por marés, sazonalmente me inundando de mulher. (275)

- Quem te ensinou a amar as mulheres?

Devia ter respondido: foi a falta de amor. (277)

Tememos a morte, sim. Mas nenhum medo é maior que aquele que sentimos da vida cheia, da vida vivida a todo o peito. (286)

[Silvestre Vitalício] A fronteira entre Jesusalém e a cidade não foi nunca traçada pela distância. O medo e a culpa foram a única fronteira. […] O medo me fez viver, recatado e pequeno. A culpa me fez fugir de mim, desabitado de memórias. […] Só esse Deus me aliviaria de um castigo que a mim mesmo me havia imposto. Contudo, só agora eu entendi: meus dois filhos, só eles me podem trazer esse perdão. (293)

A ternura daquela mulher [Noci] me confirmava que meu estava errado: o mundo não morreu. Afinal, o mundo nunca chegou a nascer. Quem sabe eu aprenda, no afinado silêncio dos braços de Noci, a encontrar a minha mãe caminhando por um infinito descampado antes de chegar à última árvore. (294)

Livro Dois: A Visita (123-218)

A Aparição (123-138)
Não chegamos realmente a viver durante a maior parte da nossa vida. Desperdiçamo-nos numa espraiada letargia a que, para nosso próprio engano e consolo, chamamos existência. No resto, vamos vagalumeando, acesos apenas por breves intermitências.
Uma vida inteira pode ser virada do avesso num só dia por uma dessas intermitências. (123)

A tempestade parecia a sublevação dos pontos cardeais [...] os desmandos cósmicos (124)

a porta da frente do casarão se destrancou por si mesma. Para mim era um sinal: uma invisível mão me convidava a cruzar a linha proibida. [...] De súbito vi o corpo. [...] Um redemoinho interior me tonteou. [...] O corpo se certificava, estrumado na varanda. (125)

o buraco nunca chegou a ficar pronto. Assim que chegávamos ao fundo, a areia soprada pelo vento recobria a cova por completo. E aconteceu uma, duas e três vezes (128)

Onde antes jazia o corpo, não havia resto de coisa alguma [...] Aos poucos, um novo estado de espírito se instalou em mim, revertendo o susto em sobranceiro sossego. (130)

eu nunca tinha exercido a minha própria infância, meu pai me envelhecera desde nascença.
Foi então que sucedeu a aparição: surgida do nada, emergiu a mulher. (131)

Inesperadamente, já não sabia viver, a Vida se havia convertido numa desconhecida língua. (132)

A intrusa passou por mim, senti pela primeira vez a doçura de um perfume feminino. [...] Deitei tento no modo como se movia, graciosa, mas sem os caricatos trejeitos com que Ntzundi representara as fêmeas criaturas. [...] Aquela era a primeira mulher e ela fazia o chão evaporar. [...] Aquele primeiro encontro marcou em mim, fundo, o misterioso poder das mulheres. (133)

Meu pai queria fechar o mundo fora dele. Mas não havia porta para ele se trancar por dentro. (137)

percorri, olhos e dedos, os papéis de Marta. Cada folha foi uma asa em que ganhei mais tontura (138)

Os papéis da mulher (139-152)

Sou mulher, sou Marta e só posso escrever. [...] E escrevo como as aves redigem o seu voo: sem papel, sem caligrafia, apenas com luz e saudade. [...] Não tenho saudade, não tenho memória: meu ventre nunca gerou vida, meu sangue nunca não se abriu em outro corpo. É assim que envelheço: evaporada em mim, véu esquecido num banco de igreja. (139)

Essa fidelidade levou-me ao mais penoso dos exílios: esse amor afastou-me da possibilidade de amar [...] Porque eu preciso tanto de nascer! De nascer outra, longe de mim, longe do meu tempo. [...] Para se estar vazia é precio ter dentro. E eu perdi a minha interioridade. [...]
Vês como fico pequena quando escrevo para ti? [...] a ausência me deixa submersa, sem acesso a mim.
Este é o meu conflito: quando estás, não existo, ignorada. Quando não estás, me desconheço, ignorante. (140)

ardo para viver. E morro afogada pela minha própria pele. (141)

sou uma palavra, tu me escreves de noite, de dia me apagas. Cada dia é uma folha que tu rasgas, sou o papel que espera pela tua mão, sou a letra que aguardo pelo afago dos teus olhos.

[…]

Nada é anterior a mim, estou inaugurando o mundo, as luzes, as sombras. Mais do que isso: estou fundando as palavras. Sou eu que as estreio, criadora do meu próprio idioma. (142)

Perseguida pelo medo da velhice, deixei envelhecer a nossa relação. Ocupada em me fazer bela, deixei escapar a verdadeira beleza, que apenas mora no desnudar do olhar. O lençol esfriou, a cama se desventurou. […] Eu ficava bela para mim, que é um outro modo de dizer: para ninguém. […] essas negras […] são sempre de corpo inteiro. […] Todo o seu corpo é mulher, todo o seu tempo é feminino. E nós, brancas, vivemos numa estranha transumância: ora somos alma ora somos corpo. Acedemos ao pecado para fugir do inferno. Aspiramos à asa do desejo para, depois, tombarmos sob o peso da culpa. (143)

tu eras um poeta. Eu era a tua poesia. (144)

Só nua eu te podia ler. Porque te recebia não em meus olhos, mas com todo o meu corpo, linha por linha, poro por poro. […] viajar só me interessava se fosse para atravessar infernos, passar a alma por labaredas […]as mulheres explicam-se a si mesmas falando sobre os seus homens. (145)

há lembranças que apenas na morte se reencontram. (146)

quem mais me fez companhia na tua ausência foi a tua amante. (147)

Só agora entendi que a sedução mora em outro lugar. Talvez no olhar. (148)

Ao contemplar a queimada na savana, me veio uma saudade dessa troca de fogo, o espelho do deslumbramento em Marcelo. Deslumbrar, como manda a palavra, deveria ser cegar, retirar a luz. […] do amor me interessa o não-saber, deixar o corpo fora da mente, em descomando absoluto. Mulher apenas na aparência. Debaixo do gesto: bicho, fera, lava.[…] Ele dizia-me - «vou contar estrelas» [...] O dedo pontuava os ombros, as costas, o peito. Meu corpo era o céu de Marcelo. E eu não soube voar, entregar-me ao torpor daquele contar de estrelas. (149)

Eu era uma tradutora surda, incapaz de verter em gesto o desejo que falava dentro de mim. (149-150)

Quero morar numa cidade onde se sonha com chuva. Num mundo onde chover é a maior felicidade. E onde todos chovemos. (150)

O meu amor escrevia de modo tão profundo que, no decurso da leitura, eu sentia o braço dele roçando o meu corpo e era como se desabotoasse o vestido e as roupas desabassem a meus pés. (150)

- A poesia é uma doença mental. (151)

Os homens não olham as mulheres que acabaram de amar porque têm medo. Têm medo do que podem encontrar no fundo dos olhos dela. (151)

Ordem de expulsão (153-172)

Tememos a Deus porque existe, mais medo temos do demónio porque não existe. (153)

Aqui [África] o Sol geme, sussura, grita. […] Lá, o Sol é uma pedra. Aqui, é um fruto. (158)

O amor é um território onde não se pode dar ordens. E ele criara um recanto governado pela obediência. (161)

As mulheres são como as guerras: fazem os homens ficarem animais. (162)

Segundos papéis (173-189)

Ela se separaria em duas como um fruto que se esgarça: o seu corpo, era a polpa, era a alma […] De noite, depois de ter sido comido, lambuzado e cuspido, o corpo retornaria ao caroço e ela dormiria, enfim, como um fruto. (179)

Como se pode ser feliz tendo um corpo que deixou de ser nosso. O sexo, disse ela, não se faz nem com o corpo nem com a alma. Faz-se com o corpo que está debaixo do corpo. (179)

Depois da chuva terminar, porém, é que sucedeu a inundação: um dilúvio de luz. Intensa, total, capaz de cegar. E me surgiram quase indistintas, a água e a luz. […] Todas as cores descoloriram, todo o espectro se tornou num lençol de brancura. (185)

Este silêncio não é calmaria alguma que tivesse experimentado antes. Não é uma ausência que apressadamente preenchemos com o medo do vazio. É um despertar por dentro. Eis o que sinto: sou possuída pelo silêncio. Nada é anterior a mim, penso. […] - Sou a primeira criatura […] De repente, o sentimento de criação se ensombra. Nada, afinal, é um princípio. Na minha vida tudo é agónico, terminal. Eu sou a que já fui. (187)

A nudez da mulher negra, contudo, me conduzia ao meu próprio corpo. Pensando no modo como via o meu corpo concluí: eu não sabia estar nua. E dei conta: o que me cobria não era tanto o vestuário mas a vergonha. […] África não era um continente. Era o medo da minha própria sensualidade. (188)

A loucura (191- 204)

O silêncio é uma travessia. Há que ter bagagem para ousar essa viagem. (192)

- Cada um de nós foi uma mentira, mas nós os dois fomos verdade. Entende Mwanito? (200)

Para o louco, falar é sempre pouco. O que ele queria dizer estava para além de qualquer idioma. (201)

Ordem para matar (205- 218)

A verdade é triste quando é única. Mais triste quando a sua feitura não tem […] o concerto da mentira. (205)

Os bichos são pré-criaturas. O Homem é que é patenteável. Só rasgando a última página do livro de Deus é que ele desafia os poderes divinos. (207)

- Metade do que fiz foi errado [Zacaria]; o resto foi mentira. (209)


Livro Um - A Humanidade (13-119)

Eu, Mwanito, o afinador de silêncios (13-32)

A humanidade era eu, meu pai, meu irmão Ntunzi e Zacarias Kalash [...] Jezibela, tão humana que afogava os devaneios sexuais de meu velho. E também não referi o meu Tio Aproximado (14)

Ninguém é de uma raça. As raças [...] são fardas que vestimos [...] eu aprendi, tarde demais, que essa farda se cola, às vezes, à alma dos homens. (15)

A família, a escola, os outros, todos elegem em nós uma centelha promissora, um território em que podemos brilhar [...] Eu nasci para estar calado [...] tenho inclinação para não falar, um talento para apurar silêncios (15)

E todo o silêncio é música em estado de gravidez (16)

O sonho é uma conversa com os mortos, uma viagem ao país das almas (20)

Uns têm filhos para ficarem mais perto de Deus (20)

os falsos tristes, os maus solitários acreditam que os lamentos sobem às alturas (20-21)

Viver? Ora, viver é cumprir sonhos, esperar notícias. (25)

Quem viveu pregado a um só chão não sabe sonhar com outros lugares (27)

do ventre do rio contemplei os rebrilhos do sol [...] A ideia de peixarmos, cativos dentro de água, me conduziu à terrível conclusão: os outros, os do lado do Sol, eram os vivos, as únicas criaturas do mundo (30-31)

Meu Pai, Silvestre Vitalício (33-58)

O vento era, para Silvestre, uma dança de fantasmas. As árvores, ventadas, convertiam-se em pessoas, eram mortos que se lamentavam, a querer arrancar as suas próprias raízes. (33-34)

Dordalma […] Em lugar de se esfumar no antigamente, ela se imiscuía nas frestas do silêncio, nas reentrâncias da noite. (35)

meu pai vazara o mundo para o poder encher com as suas invenções. (36)

Silvestre Vitalício sabia tudo e esse saber absoluto era a casa que me dava resguardo. Era ele que conferia nome às coisas, era ele que baptizava árvores e serpentes, era ele que previa ventos e enchentes. Meu pai era o único Deus que nos cabia. (36-37)

Rebaptizados, nós tínhamos outro nascimento. E ficávamos isentos do passado. (41)

Todo o nascimento é uma exclusão, uma mutilação. Fosse vontade minha e eu ainda seria parte do seu corpo [mãe], o mesmo sangue nos banharia. Diz-se «parto». Pois seria mais acertado dizer «partida». (44)

Eu já aprendera a vislumbrar as líquidas luzes do rio, já sabia viajar por letrinhas como se cada uma fosse uma estrada infinita. (48)

- Há visitas que nem se dá conta. São anjos e demónios que chegam sem pedir licença… […]

- Anjos ou demónios, a diferença não está neles. Apenas está em nós. (49-50)

Talvez fosse esse desespero que o fazia entregar a uma religião pessoal, uma interpretação muito própria do sagrado. Em geral, o serviço de Deus é perdoar os nossos pecados. Para Silvestre, a existência de Deus servia para O culparmos pelos pecados humanos. Nessa fé às avessas não havia rezas, nem rituais: uma simples cruz a entrada do acampamento orientava a chegada de Deus ao nosso sítio. (52)

Não é segurando nas asas que se ajuda um pássaro a voar. o pássaro voa simplesmente porque o deixam ser pássaro. (57)

Meu irmão, Ntunzi (59-74)

Silvestre achava que uma boa história era uma arma mais poderosa que um fuzil ou navalha. (59-60)

[Ntunzi] - Neste mundo existem os vivos e os mortos. E existimos nós, os que não temos viagem. (60)

A cegueira é o destino de quem se deixa tomar de assalto pela paixão: deixamos de ver quem amamos. Em vez disso, o apaixonado fita o abismo de si mesmo.
-Mulheres são como as ilhas: sempre longe, mas ofuscando todo o mar em redor. (62)

Os mortos não morrem quando deixam de viver, mas quando os votamos ao esquecimento. (65)

O medo faz dilatar as distâncias. [...] Era o pior dos maus-olhados: aquele que lançamos sobre nós próprios. (71)

Não viver é o que mais cansa. (72)

O Tio Aproximado (75-88)

- são todos cúmplices, esses dois muito triplos - garantia Ntzundi. - É o sangue que os liga, sim, mas é o sangue dos outros. (78)

- saudade é esperar que a farinha se refaça em grão. (80)

Quem perde esperança foge. Quem perde confiança esconde-se. (81)

O Tio Aproximado ficou pontapeando as pedras do átrio. A raiva é apenas um modo diverso de chorar. Conservei-me distante, fingindo que arrumava as ferramentas. Ninguém se deve aproximar de um homem que faz de conta que não chora. (83)

Pois digo e repito. De que vale ter crença em Deus se perdemos fé nos homens? [...] Política? A política morreu, foram os políticos que a mataram. Agora, restou apenas a guerra (87)

Zacaria Kalash, o militar (89-104)

- Estes são os avessos dos meus umbigos. POR aqui – e apontava os buracos – por aqui se escapou a morte (p. 90)

O que ele queria era contar histórias de caça, falar sem conversar, escutar-se a si mesmo para deixar de ouvir os seus fantasmas. (p. 91)

Nós não entendíamos Jesusalém, dizia Kalash. – As coisas, aqui, são pessoas – explicou. Queixávamo-nos que estávamos sós? Porém, tudo em nosso redor eram pessoas, humanas criaturas vertidas em pedras, em árvores, em bichos. E até em rio. (p. 101)

A jumenta Jezibela (105 - 119)

Afinal o Lado-de-Lá estava vivo e governava as almas de Jesusalém (p. 119)

Um rápido olhar sobre jesulalém

Mia Couto surpreendeu, mais uma vez, com Jesusalém. O amadurecimento da estrutura do romance não trai a matriz dos seus conto; a entrada abrupta na história, a fragilidade psicológica das suas personagens, nem a «ilógica» do pensamento estruturante que transpira da cosmovisão inscrita nas suas obras.

«Mwanito, o afinador de silêncios» é o narrador, o contador de histórias que vai desfiando das suas memórias, entretecendo as verdades que cada personagem sustenta, deixando ao leitor o prazer de desenlaçar a crença de cada um e conseguir uma visão de conjunto.

De um modo abrupto chegamos a Jesusalém, cientes de um passado que todas as personagens se esforçam em esquecer, negando a história. Fugindo da realidade cruel, reinventarem-se no imaginário de veredas de Jesusalém, um espaço real, mas sonhado de modo diverso.

São estes caminhos encruzilhados e sulcados no interior das personagens que o imaginado tenta cicatrizar e rearranjar o passado obrigado a esquecer. Tanto Silvestre Vitalício que decreta: «vocês não podem sonhar nem lembrar. Porque eu próprio não sonho, nem lembro», como o militar Zacaria Kalach desejam fugir do passado e do tempo que os devora. Assim, inauguram uma nova ordem, mudando o nome com excepção do narrador, ainda muito novo para ser do tempo passado.

É neste enquadramento que se vão anulando as identidades, indiciando os afectos e os desafectos passados com o sagrado feminino como a razão desta ordem, com forte expressão na negação do feminino. No entanto, é sedutor o contraditório da trama urdida por Mia Couto ao destacar vozes poéticas do feminino, dando enfoque ao feminino como temática central do romance. É neste contexto que Ba Ka Khosa realça aspectos incontornáveis: «a escolha de mulheres poetas para os cantos, e da mulher mãe, amante, esposa, como desencadeadora da trama romanesca. Este jogo entre os vates dos salmos, e os personagens do romance – maioritariamente masculinos – dá-nos a dimensão indescritível do mundo efabulatório de Mia Couto. Nos cantos, as musas, as deusas, o sagrado feminino expressando-se na mais elevada linguagem: a poesia. No romance, no texto, a negação do feminino, a desacralização da mulher, a diabolização da criadora da vida».

Este olhar de Mia Couto sobre a mulher incomoda preconceitos sociais, confronta sensibilidades masculinas e femininas e coloca-se numa dimensão da essência do eu que se exprime feminino. São estas provocações que vão despertanto consciências e moldando comportamentos. Já Marguerite Yourcenar havia notado estes contrasensos: «A vida das mulheres é limitada demais ou excessivamente secreta. Que uma mulher se conte, e a primeira censura que lhe será feita é a de deixar de ser mulher. Já é bastante difícil pôr qualquer verdade na boca de um homem».

Apresentação do Livro de MIa Couto: Jesusalém


«Ouver» a Palestra: Antes de nascer o mundo - Mia Couto


Ungulani Ba Ka Khosa, escritor moçambicano.

A viagem interior de Mia Couto

Pedem-me palavras primeiras ao lançamento em solo pátrio do livro Jesusalém; pedem-me uma leitura, um olhar, um escorço a um escritor que há muito se remessou, com o seu engenho, para horizontes que não se confinam somente as fronteiras mundiais da língua da sua escrita, do seu discurso literário. Que palavras para um transfronteiriço, um disseminador de linguagens, de imagens, de identidades de um rincão dos trópicos perdidos, para a geografia do mundo, para o mapa dos saberes perenes, senão o enaltecimento desse magistério, desse exemplo que nunca se escorou nas efémeras facilidades tropicais, por valer-se sempre do seu talento, da sua arte.

Na moeda da nossa cultura há muito que Mia Couto deixou de se inscrever no reverso, nesse lado onde pontificam outras nobres figuras das nossas letras e artes, porque transladou, por mérito, por labor, ao anverso, e tornou-se na efígie da nossa moeda na transacção no grande bazar das culturas. A essa moeda já não se pergunta pela sua validade, mas pedem-se trocos, quer-se conhece-la nas suas múltiplas vertentes, nos seus variados espelhos. No dédalo das culturas, a obra do Mia, para nosso gáudio, não foi devorada pelo Minotauro sedento do efémero, do passadiço, porque o fio de Ariadne, o fio da perseverança, o fio da qualidade, o fio da salvação ao olvido, o guia pelos labirintos do mundo da literatura saudável, robusta, perene, e sem artifícios, como dizia Hemingway. Com Mia ganha a literatura moçambicana, ganham os escritores, e ganha este País ainda relutante em assumir que a grande bandeira na memória dos povos é a cultura drapejando pelo mundo nos seus variados tentáculos.

Ao ler Jesusalém, ocorreu-me, pela estratégia, o Engenhososo Fidalgo D. Quixote de la Mancha. Cervantes, com a sua obra, erigiu, como todos sabemos, o fundamento do mundo romanesco moderno: a ambiguidade. Não há uma verdade, há muitas verdades. Verdades relativas que se vão entrelaçando, formando um nó que o leitor vai desenlaçando com o prazer ou desprazer, dependendo do engenho do autor. Em Cervantes, D. Quixote sai para o mundo, desfazendo injustiças e protegendo damas, personificadas no amor imaginário pela Dulcineia Del Toboso. Em Jesusalém os personagens saem do mundo e pervagam pelos labirintos da vida interior, esquecendo injustiças e riscando damas da memória. Em Cervantes o Fidalgo D. Quixote, acompanhado do seu escudeiro Sancho Pança, quer endireitar o mundo. Em Jesusalém, Silvestre Vitalício e o serviçal Zacaria Kalach, escudeiro nos modernos dizeres, querem sair da História, da selva dos tempos modernos. Nos dois a viagem. Num, do imaginário à realidade, noutro, da realidade crua, sangrenta, ao imaginário interior.

Algo nos perturba nas primeiras páginas de Jesusalém: o título e os Livros - divisores de capítulos, alusão aos livros biblícos. À partida somos perseguidos por essa imagem secular e tutelar de Jesus, o Cristo de uma moral, de uma teologia. Perguntamo-nos se a alusão aos Livros - Um, Dois e Três -, é o egresso, a saída dos livros canónicos em direcção ao mundo do Cristo descrucificado, ou um artificio da efabulação, um jogo de espelhos? A poeta Sophia de Mello Breyner Andresen não nos ajuda muito ao dizer que “Escuto mas não sei⁄ Se o que oiço é silêncio ⁄ Ou deus”. Mas as dúvidas dissipam-se quando o emblemático Silvestre Vitalício convoca os eremitas e anuncia que a terra da iniciação chamar-se-á Jesusalém, e os que nela irão conviver serão desbaptizados. A excepção do mais novo, por sinal o narrador, os principais personagens da trama convertem-se a nova ordem. Orlando Macara, passa a Tio Aproximado; Olindo Ventura a Ntuzi-sombra; Ernestinho Sobra a Zacarias Kalach; Mateus Ventura A Silvestre Vitalício. O mais novo mantêm-se como mwanito, diminutivo de rapaz em chissena, língua do centro do país, por o pai achar que “…ainda está nascendo”. Formaliza-se, na ordem simbólica, o destino dos personagens, dando, por conseguinte, sinal de partida e coerência ao que Vitalício dissera ao Mwanito, o afinador de silêncios: “…vocês não podem sonhar nem lembrar. Porque eu próprio não sonho, nem lembro.” Quer-se inaugurar uma nova ordem, uma nova gramática, uma sintaxe fora do mundo caótico, desordenado, onde outrora viveram. Para tal é preciso instaurar um mundo, uma humanidade no dizer do autor. Jesusalém é o espaço demarcado, o nicho que se quer diferente. “Um dia , Deus nos virá pedir desculpa, diz Vitalício ao grafar, por cima da tabuleta indicativa de Jesusalém, a frase: “Seja bem-vindo, Senhor Deus.”

A abertura dos capítulos e subcapítulos dos Livros comportam, no meu entender, Salmos – permitam-me invocar o sagrado termo para o romance. Tirando as citações do sociólogo e também poeta francês Jean Baudrillard, e do escritor Herman Hesse, Mia elegeu para seus salmos quatro grandes poetas, sendo três do espaço lusófono- as brasileiras Adélia Prado e Hilda Hilst, e a portuguesa Sophia de Mello Breyener Andresen -, e uma de língua castelhana, a argentina Alejandra Pizarnick. Interessante notar na construção do romance, no jogo de afectos e desafectos, a escolha de mulheres poetas para os cantos, e da mulher mãe, amante, esposa, como desencadeadora da trama romanesca. Este jogo entre os vates dos salmos, e os personagens do romance - maioritariamente masculinos -, dá-nos a dimensão indescritível do mundo efabulatório de Mia Couto. Nos cantos, as musas, as deusas, o sagrado feminino expressando-se na mais elevada linguagem: a poesia. No romance, no texto, a negação do feminino, a desacralização da mulher, a diabolização da criadora da vida. Que é isto senão a anfibologia, o jogo de sentidos, a ambiguidade do texto, a razão da literatura?

Diz a poeta Alejandra Pizarnick: “Yo me levanté de mi cadáver, e fui em busca de quien soy. Peregrina de mí…” No romance, pelo contrário, não se busca a identidade, não se procura o eu, quer-se, isso sim, matar a memória, esquecer o mundo vivido, e invocar uma nova ordem que se fundamente no silêncio. Um silêncio com um Deus que Hilda Hilst alvitra como “ O Deus de que vos falo ⁄ Não é um Deus de afagos ⁄ É mudo. ⁄ Está só…”. Mas é em Sophia de Mello que está o canto primeiro e último, a voz iniciática em “ Sou o único homem a bordo do meu barco. ⁄ Os outros são monstros que não falam, ⁄ Tigres e ursos que amarrei aos remos, ⁄ E o meu desprezo reina sobre o mar. ”, e o canto último em “ Nunca mais amarei quem não possa viver ⁄ Sempre, ⁄ Porque eu amei como se fossem eternos ⁄ A glória, a luz e o brilho do teu ser, ⁄ Amei-te em verdade e transparência ⁄ E nem sequer me resta a tua ausência, ⁄ És um rosto de nojo e negação ⁄ E eu fecho os olhos para não te ver. ⁄ Nunca mais servirei senhor que possa morrer.” Está dito. O anátema a uma realidade cruel, predadora, que nos desumaniza com discursos envenenados, máquinas trituradoras de boas consciências com a efemeridade de sonhos adocicados, é sinal de busca de outros horizontes que a nossa consciência, liberta das cartilhas castralizadoras da história, nos vai ditar nessa longa viagem pelo interior de nós mesmos

Mia está ciente de que não há rincão neste mundo onde a voz humana não possa chegar. Os tempos modernos anularam barreiras, aproximaram mundos, desfizeram mitos. Não há mais mão autocrática que possa travar, por tempo indeterminado, a barreira da comunicação, o fluxo do pensamento. Em Jesusalém a ponte entre mundos nunca foi totalmente anulada, porque o Aproximado aproximou sempre os mundos, ainda que na vertente material, palpável. O mais interessante neste jogo de luzes e sombras, é a quebra dos silêncios advir do corpo de mulher, duma figura feminina transposta de outros oceanos, como que a provar que o mundo é tão grande e ao mesmo tempo pequeno na confluência dos sentimentos. Se o feminino desencadeou a partida, a fuga, o distanciamento, o mesmo feminino veio aglutinar e encadear outras ligações, outros discursos, outros silêncios, outras anarquias. É a Marta, simbolizando o distante ⁄ próximo, que anuncia ao Vitalício que não é o único a sair do mundo: -“ Caro Ventura, uma coisa lhe posso dizer: não foi só o senhor a sair do mundo.” O mundo está a nossa janela.

Se evoquei Cervantes, fi-lo com a deliberada intenção de dizer que a viagem, a procura de significados , é presença constante desde os antanhos da literatura. Se Cervantes guiuo o seu fidalgo pelas terras da Mancha, Aragão e Catalunha, a busca de verdades, encontrou verdades relativas. Em Mia, a viagem é para a cura. E isso torna-se apodíctico quando o personagem Mwanito, diz: “ –Deixo de ser cego apenas quando escrevo.” A escrita tornou-se orgânica, transformou-se em mais um dos sentidos do corpo. Sem ela a cegueira é incontornável. E para que isso não aconteça é preciso viajar, viajar sempre no barco da escrita. Mia busca sonoridades, sons que a pauta da vida não grafou. E é nessa viagem infinita, nessa incessante busca do som puro que a literatura, o romance inaugurado por Cervantes há quatro séculos, encontra a sua vida, o seu oxigénio. Com Mia, mais que com os inauguradores de correntes, os exegetas do fim do romance, encontramos o prazer da efabulação, o encanto de criar, de amar a palavra, de usufruir o texto.

Fico grato por te ter como lábaro - não o estandarte das iniciais de Jesus Cristo na época de Constantino, a efígie literária nos labirintos do mundo da escrita. Este Jesusalém que se quer como o livro dos livros ensina-nos que nesta selva de desigualdades, de alienação global, de homogeneização de ambições mesquinhas e terrenas, o grande desafio está em abrir até aos limites a grande coutada da vida: a nossa consciência.

Ungulani Ba Ka Khosa (Algumas obras: Ualalapi, Orgia dos Loucos, Histórias de Amor e Espanto, No Reino dos Abutres)

Maputo,23 de Junho de 2009