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Apontamentos sobre as «Memórias de Adriano» (p. 223-246)

Apesar de tudo, era demasiado nova. Há livros a que só devemos abalançar-nos depois dos quarenta anos. Antes dessa idade corre-se o risco de desconhecer a existência das grandes fronteiras naturais que separam, de pessoa para pessoa, de século para século, a infinita variedade de seres, ou, pelo contrário, de dar exagerada importância às simples divisões administrativas, às formalidades da alfândega ou às guaritas dos postos armados. Foram-me precisos esses anos para aprender a calcular exactamente as distâncias entre o imperador e eu. (p. 227)

este ascetismo e este hedonismo são, em muitos pontos, permutáveis. (p. 227)

A vida das mulheres é limitada demais ou excessivamente secreta. Que uma mulher se conte, e a primeira censura que lhe será feita é a de deixar de ser mulher. Já é bastante difícil pôr qualquer verdade na boca de um homem. (p. 231)

O romance histórico de 1830 cai, é certo, no melodrama e no folhetim de capa e espada [...] No nosso tempo, o romance histórico, ou o que, por comodidade, se consente em designar como tal, só pode ser imerso num tempo, tomada de posse de um mundo interior. (p. 232)

A minha própria existência, se eu quisesse escrevê-la, seria reconstituída por mim, de fora, penosamente, como a de outra pessoa; teria que recorrer a cartas, a lembranças de outrem, para fixar essas flutuantes memórias. Nunca são mais que paredes desmoronadas, divisórias de sombras (p. 233)

Interdizer a si mesmo as sombras projectadas; não permitir que o bafo de um hálito se estenda sobre o aço do espelho; aproveitar somente o que há de mais duradouro, de mais essencial em nós, nas emoções dos sentidos ou nas operações do espírito, como ponto de contacto com aqueles homens que como nós trincaram azeitonas, beberam vinho, bezuntaram os dedos de mel, lutaram contra o vento agreste e a chuva que cega, ou procuraram no Verão a sombra do plátano, e gozaram, e pensaram, e envelheceram, e morreram. (p. 234)

A substância, a estrutura humana não mudam. Nada mais estável que a curva de um tornozelo, o lugar de um tendão ou a forma do dedo de um pé. Mas há épocas em que o calçado deforma menos. No século de que falo, estamos ainda muito perto da livre verdade do pé nu. (p. 234)

O próprio Antínoo só pode avistar-se por refracção, através das recordações do imperador, quer dizer, com uma minúcia apaixonada e alguns erros. (p. 236)

Apercebi-me rapidamente de que escrevia a vida de um grande homem. Daí, maior respeito pela verdade, mais atenção e, quanto a mim, maior silêncio. (p. 240)

Todo o ser que viveu a aventura humana fui eu. (p. 241)

Este século II interessa-me porque foi, durante muito tempo, o dos últimos homens livres. Pelo que nos diz respeito, estamos talvez já muito distantes desse tempo. (p. 241)

a fidelidade aos facto aumenta fortemente o seu valor humano (p. 247)

Patientia (205- 222)

a passagem do tempo apenas acrescenta à infelicidade mais uma vertigem (p. 208)

Não sabia ainda que a morte pode tornar-se objecto de ardor cego, de uma fome como o amor [...] combate sem glória contra o vácuo, a fadiga, o tédio de existir que leva ao desejo de morrer (p. 209)

Confiei toda a minha vida na sabedoria do meu corpo; procurei saborear com discernimento as sensações que este amigo me proporcionava: tenho por dever apreciar também as últimas (p. 212)

não podemos encerrar-nos durante anos num único pensamento sem fazer entrar nele, pouco a pouco, todas as rotinas de uma vida (p. 216)

Nota. Dada a natureza do tema e porque a juventude dos meus alunos é um bem muito estimado por mim, fico por aqui neste capítulo.

Disciplina augusta (163-204)



Tinha desde há muito concedido por toda a parte isenções análogas aos médicos e aos professores, na esperança de favorecer a manutenção e desenvolvimento de uma classe média séria e sábia. Conhecendo-lhe os defeitos, mas um Estado só subsiste por ela. (p. 165-166)

Antímaco compreendera melhor o mistério dos horizontes e das viagens e a sombra projectada pelo homem efémero nas paisagens eternas. (p. 167)

o mundo talvez não tenha nenhum sentido, mas, se tem algum, este exprime-se em Elêusis […] Tudo entrava ali, Héstia e Baco, os deuses do lar e os da orgia, as divindades celestes e as do além-túmulo (p. 168)

toda a tolerância concedida aos fanáticos faz-lhes acreditar imediatamente na simpatia pela sua causa (p. 169)

os pedantes irritam-se sempre quando os outros sabem tão bem como eles o seu mesquinho ofício (p. 171)

A palavra filantropia é grega, mas é o legista Sávio Juliano e eu quem trabalha para modificar a miserável condição de escravo (p. 171)

espanto-me mesmo de que aqueles municípios, muitos dos quais mais antigos que Roma, se mostrassem tão prontos a renunciar aos seus costumes, por vezes bastante judiciosos, para em tudo se assimilarem à capital. O meu fim era simplesmente diminuir essa massa de contradições e de abusos que acabam por fazer do processo um matagal onde as pessoas honestas não ousam aventurar-se e onde prosperam os bandidos. (p. 173)

Perdera […] aquela agilidade de espírito que me permitia associar-me ao pensamento de outrem, de tirar proveito dele, ao mesmo tempo que o julgava (p. 176)

Povo algum, excepto Israel, tem a arrogância de possuir toda a verdade nos estreitos limites de uma única concepção divina, insultando assim a multiplicidade de deus que contém tudo (p. 179)

em todos os combates entre o fanatismo e o senso comum, este último raramente vence (p. 179)

tudo o que põe em relevo o esforço do homem, nem que seja só por um dia, parecia-me salutar perante um mundo tão pronto a esquecer (p. 191)

chegara à idade em que cada lugar belo lembra um outro mais belo, em que cada delícia se agrava com a lembrança de delícias passadas. Aceitava entregar-me aquela nostalgia que é a melancolia do desejo. (p. 191)

Não tenho filhos e não o lamento […] Mas esse desgosto tão vão baseia-se em duas hipóteses igualmente duvidosas: a de que um filho forçosamente nos prolonga e a de que este estranho amontoado de bem e de mal, esta massa de particularidades ínfimas e bizarras que constitui uma pessoa mereça ser prolongado. Utilizei o melhor que pude as minhas virtudes; tirei partido dos meus vícios; mas não tenho especial empenho em legar-me a alguém. (p. 192)

a possibilidade de atirar fora a máscara em tudo é uma das raras vantagens que o envelhecimento me dá (p. 194)

a minha opinião a seu respeito modificava-se sem cessar, o que só acontece como os seres que nos tocam de perto; contentamo-nos em julgar os outros mais por alto, e de uma vez para sempre. (p. 195)

A idade nunca me pareceu uma desculpa para a malignidade humana; verei antes nela uma circunstância agravante (p. 197)

Os deuses não se levantam; não se levantam nem para nos advertir, nem para nos proteger, nem para nos recompensar, nem para nos punir (p. 198)

mas aos dezassete anos o excesso é uma virtude (p. 202)

Há mais de uma sabedoria, e todas são necessárias no mundo, não é mau que alternem (p. 204)

dali em diante podia voltar para Tíbure, reentrar nesta inactividade que é a doença, experimentar, com os meus sofrimentos, mergulhar no que me restava de delícias, continuar em paz o diálogo interrompido com um fantasma (p. 204)

Saeculum aureum (119-162)


Antínoo era grego [...] Mas a Ásia havia produzido naquele sangue um pouco acre o efeito da gota de mel que turva e perfuma o vinho puro. (p. 122)

Só fui senhor absoluto uma única vez e de um único ser (p. 122)

Uma hora de sol fazia-o passar da cor do jasmim à do mel [...] o jeito de infantil de fazer beicinho carregou-se de uma amargura ardente, de uma saciedade triste. Na verdade aquele rosto mudava como se eu o tivesse esculpido dia e noite. 
Quando me volto de novo sobre esses anos julgo encontrar a Idade de Ouro. Tudo era fácil: outrora os esforços eram recompensados por uma satisfação quase divina. 
A paixão cumulada  cumulada tem a sua inocência, quase tão frágil como qualquer outra
[...] ao romper do dia descíamos para nos banharmos nas margens do rio, pisando, ao passar, as altas ervas molhadas pelo orvalho nocturno, sob um céu donde pendia o delgado crente da lua (p. 122)
A travessia do Bósforo sob a tempestade de neve foi bela; houve cavalgadas na floresta trácia, com o vento áspero engolfando-se nas pregas das capas (p. 124)

erigiu-se uma coluna, onde foi gravado um poema, para comemorar essa lembrança de um tempo em que tudo, visto a distância, parece ter sido nobre e simples, a ternura, a glória, a morte. (p. 124-125)

Avistava por entre as cordas o perfil do meu jovem companheiro, sensatamente ocupado a desempenhar a sua parte no conjunto, e os seus dedos tocando com cuidado ao longo dos fios esticados. Este belo Inverno foi rico de convívios amigáveis (p. 126)

Aquele belo ser sensual encarava a morte com horror; eu não me apercebia de que ele já pensava muito nela. Quanto a mim, compreendia mal que se deixasse voluntariamente um mundo que me parecia belo, que se não esgotasse aé ao fim, a despeito de todos os males, a última possibilidade de pensamento, de contacto e mesmo de olhar. Mudei muito depois. (p. 128)

do alto do Etna [...] desenrolou-se de um horizonte ao outro um imenso véu de Íris; sobre as neves dos cimos brilharam estranhos fogos; o espaço terrestre e marítimo abriu-se ao noso olhar até a África visível e a Grécia adivinhada. Foi um dos momentos culmiantes da minha vida. Não faltou nada, nem a franja dourada de uma nuvem, nem as águias, nem o copeiro da imortalidade [...] confesso sem rodeios as causas secretas dessa felicidade: aquela calma tão propícia aos trabalhos e às disciplinas parece-me um dos mais belos efeitos do amor (p. 128)

Naquela época punha em fortalecer a minha felicidade, apreciá-la, e também em julgá-la, a atenção que sempre dispensara aos mais pequenos pormenores dos meus actos; e que é a própria voluptuosidade senão um momento de atenção apaixonada do corpo? Toda a felicidade é uma obra-prima: o menor erro falseia-a, a menor hesitação altera-a, a menor deselegância desfeia-a, a menor estupidez embrutece-a. (p. 129)

Todas as divindades me pareciam, cada vez mais, misteriosamente fundidas num todo, emanações infinitamente variadas, manifestações iguais da mesma força: as suas contradições não eram mais do que uma forma de acordo. (p. 130) 

Há muito tempo já que eu preferia as fábulas relativas aos amores e às querelas dos deuses aos comentários ineptos dos filósofos sobre a natureza divina; aceitava ser a imagem terrestre daquele Júpiter tanto mais deus quanto é homem (p. 132)

Gostava muito que figurasse nas moedas romanas um perfil de imperatriz tendo no reverso uma inscrição, umas vezes ao Pudor, outras à Tranquilidade (p. 133)

O meu jovem pastor tornava-se um jovem príncipe. Já não era a criança zelosa que, nas paragens, saltava do cavalo para me oferecer água das fontes recolhida nas suas mãos: o doador sabia agora o imenso valor dos seus dons. 

Ofereço aqui aos moralistas uma ocasião fácil de triunfar sobre mim (p. 134)

Entre tantos disfarces, no meio de tantos prestígios, aconteceu-me esquecer a pessoa humana, a criança que se esforçava em vão para aprender Latim, que pedia ao engenheiro Decriano que lhe desse lições de Matemática e depois renunciava a elas, e que, à mínima censura, ia amuado para a proa do navio, contemplando o mar. (p. 136)

Foi então que uma melancolia momentânea me apertou o coração: pensei que as palavras acabamento, perfeição, contêm em si a palavra fim: talvez eu tivesse somente oferecido mais uma presa ao tempo devorador. 

Não amava menos; amava mais. Mas o peso do amor, como o de um braço ternamente pousado sobre um peito, tornava-se pouco a pouco mais difícil de suportar. (p. 137)

Aconteceu-me bater-lhe: lembrar-me-ei sempre daqueles olhos assombrados. Mas o ídolo esbofeteado continuava a ser ídolo, e os sacrifícios expiatórios começavam. (p. 138)

O tempo de Elêusis tinha passado [...] convinham àquele momento da vida em que a dança se torna vertigem, em que o canto se acaba em grito (p. 139)

Dominava-me a curiosidade dessas regiões intermédias em que a alma e a carne se fundem, em que o sonho responde à realidade e, por vezes, a ultrapassa, onde a vida e a morte trocam os seus atributos e as suas máscaras.

não será a alma apenas o supremo resultado do corpo, frágil manifestação da dor e do prazer de existir? É, pelo contrário, mais antiga que este corpo modelado à sua imagem, e que, melhor ou pior, lhe serve momentaneamente de instrumento? É possível chamá-la ao interior da carne, restabelecer entre elas esta união estreita, esta combustão a que chamamos vida? Se as almas possuem a sua identidade própria, podem elas tocar-se, ir de uma para outra como o bocado de um fruto, o gole de vinho que dois amantes passam um ao outro num beijo? Todos os sábios mudam de opinião sobre estes assuntos vinte vezes por ano. (p. 141) 

Em Alexandria as religiões são tão variadas como os negócios: a qualidade do produto é mais duvidosa. (p. 147)

Jerusalém significava-me, pela boca de Akiba, a sua vontade de se conservar até o fim a fortaleza de uma raça e de um deus isolados da raça humana. (p. 148)

Antínoo, deitado no fundo da barca, encostara a cabeça aos meus joelhos; [...] A minha mão deslizou na sua nuca, sob os cabelos. Nos momentos mais vãos ou mais ternos, eu tinha ainda o sentimento de ficar em contacto com os grandes objectos naturais, a densidade das florestas, o dorso musculado das panteras, o pulsação regular das fontes. Mas nenhuma carícia chega à alma. (p. 150)

uma criança receosa de perder tudo encontrara o meio de me ligar a si para sempre. Se pensou proteger-me com aquele sacrifício, deve ter-se julgado bem pouco amado para não sentir que o pior dos males seria perdê-lo. (p. 154-155)

Estava fatigado daquelas figuras colossais de reis todos idênticos, sentados lado a lado, apoiando na sua frente os pés longo e chatos, daqueles blocos inertes em que não está presente coisa alguma daquilo que para nós constitui a vida, nem a dor, nem a reflexão que organiza o mundo em volta de uma cabeça inclinada. (p. 155-156)

o imperador […] pegou na sua adaga e lavrou naquela pedra dura algumas letras gregas, uma forma abreviada e familiar do seu nome ADRIANO… Era ainda uma oposição ao tempo: um nome, uma soma de vida de que ninguém computaria os inúmeros elementos, uma marca deixada por um homem perdido nesta sucessão de séculos (p. 156)

Tellus stabilita (77-118)

Tentei demonstrar aos Gregos que não eram eles sempre os mais sábios e aos Judeus que não eram de modo algum os mais puros. [...] Aquelas raças, que viviam há séculos porta com porta, nunca tinham tido a curiosidade de se conecher nem a decência de se aceitar mutuamente. (p. 80)

sabia que o bem, como o mal, é uma questão de rotina, que o temporário se prolonga, que o exterior se infiltra no interior e que, com o decorrer do tempo, a máscara toma-se face. Pois que o ódio, a estupidez, o delírio têm efeitos duradouros, não via razão para que a lucidez, a justiça, a benevolência não tivessem também os seus. (p. 80)

Confessei o meu medo: não me sentia mais isento de crueldade que de qualquer outra tara humana: aceitava o lugar-comum que diz que o crime atrai crime, a imagem do animal que uma vez provou o gosto do sangue (p. 83)

Cada um de nós tem mais virtudes que os outros supõem, mas só o êxito as torna notórias, talvez porque se espera então que deixemos de as praticar. Os seres humanos confessam estupidamente as suas piores fraquezas quando se espantam de que um senhor do mundo não seja indolente, presunçoso ou cruel. (p. 85)

aprendi a suportar os Jogos […] Detestava aqueles massacres em que a fera não tem uma probabilidade; no entanto, ia percebendo pouco a pouco o seu valor ritual, os seus efeitos de trágica purificação sobre a multidão inculta (p. 86)

aparentar desdém pela alegria dos outros é insultá-los (p. 86)

A moral é uma convenção privada; a decência é uma questão pública; todo o desregramento excessivamente visível deu-me sempre a impressão de uma exibição de má qualidade (p. 86)

Sobre a amizade de Plotina a sua amizade continuava a ser exigente, mas, apesar de tudo, só tinha exigências sensatas (p. 87)

Todo o prazer sentido com gosto me parece casto (p. 88)

Um triunfo só assenta bem aos mortos. Durante a vida há sempre alguém para censurar as nossas fraquezas, como outrora a César sua calvíce e os seus amores (p. 88-89)

Roma já não cabe em Roma: daqui em diante tem que decair ou igualar-se a metade do mundo [...] Virtudes que eram suficientes para a pequena cidade das sete colinas teriam que tornar-se flexíveis, diversificar-se, para convirem à terra inteira. (p. 89-90)




toda a criação humana que aspira à eternidade deve adaptar-se ao ritmo instável dos grandes objectos naturais, harmonizar-se com o tempo dos astros (p. 90)



E agradecia aos deuses por me terem concedido viver num tempo em que a tarefa que me coube consistia em reorganizar prudentemente o mundo e não em tirar do caos uma matéria ainda informe ou deitar-me sobre um cadáver para tentar ressucitá-lo (p. 90-91)



Alegrava-me que as nossas religiões vagas e veneráveis decantadas de toda a intransigência ou de todo o ritual selvagem, nos associassem misteriosamente aos sonhos mais antigos do homem e da terra, mas sem nos proibir uma explicação laica dos factos, uma visão racional do comportamento humano. Agradava-me enfim que estas mesmas palavras Humanidade, Felicidade, Liberdade não houvessem ainda sido desvalorizadas por demasiadas aplicações ridículas. (p. 91)



toda a explicação lúcida me convenceu sempre, toda a delicadeza me conquistou, toda a felicidade me tornou moderado. E nunca prestei grande atenção às pessoas bem intencionadas que dizem que a felicidade excita, que a liberdade enfraquece e que a humanidade corrompe aqueles sobre quem é exercida. (p. 91)



Devo acrescentar que acredito pouco nas leis. Demasiado duras, são transgredidas com razão. Demasiado complicadas, o engenho humano encontra facilmente maneira de se escapar por entre as malhas dessa nassa monótona e frágil. O respeito pelas leis antigas corresponde ao que tem de mais profundo a piedade humana; serve também de almofada à inércia dos juízes. As mais velhas participam daquela selvageria que se empenhavam em corrigir; as mais veneráveis são um

produto da força. (p. 91-92)



Até agora todos os povos decaíram por falta de generosidade (p. 93)



Duvido de que toda a filosofia do mundo consiga suprimir a escravatura: o mais que poderá suceder é mudarem-lhe o nome. (p. 93)



A condição das mulheres é determinada por estranhos costumes: são ao mesmo tempo dominadas e protegidas, fracas e poderosas, excessivamente desprezadas e excessivamente respeitadas. Neste caos de usos contraditórios, a sociedade sobrepõe-se à natureza [...] A fraqueza das mulheres, como a dos escravos, resiste à sua condição legal; a sua força vinga-se nas pequenas coisas em que o poder que elas exercem é quase ilimitado (p. 94)



Somos funcionários do Estado, não somos Césares (p. 97)



Construir é colaborar com a terra; é pôr numa paisagem uma marca humana que a modificará para sempre (p. 101)



Cada pedra era a estranha concreção de uma vontade, de uma memória, por vezes um desafio. Cada edifício era o plano de um sonho (p. 102)



Sou como os nossos escultores: o humano satisfaz-me; nele encontro tudo, até o eterno. (p. 104)


O vento atirou-nos muitas vezes seguidas para a costa que havíamos deixado: aquela travessia contrariada proporcionou-me espantosas horas vazias […]
durante a sua vida breve, cada homem tem sempre que escolher, entre a esperança infatigável e a sensata ausência de expectativa, entre as delícias do caos e as da estabilidade, entre o Titã e o Olímpico. A escolher entre eles ou a conseguir pô-los, um dia, de acordo um com o outro. (p. 108)



Estas vistas do espírito são desprovidas de valor prático: deixam contudo de ser absurdas desde que o calculador se conceda, para as suas computações, uma porção bastante vasta de futuro (p. 108- 109)


Era um sábio indiano [...] as suas meditações o induziam a acreditar que o universo inteiro não é mais do que um tecido de ilusões e erros: a austeridade, a renúncia, a morte eram para ele o único meio de escapar à corrente variável das coisas [...] de encontrar, para além do mundo dos sentidos, aquela esfera do divino puro, aquele firmamento fixo e vazio com o qual Platão também sonhou [...] Aquele brâmane chegara ao estado em que coisa alguma, excepto o seu corpo, o separava já do deus intangível, sem substância e sem forma (p. 112)


Elêusis [...] Aqueles grandes ritos simbolizam apenas os acontecimentos da vida humana, mas o símbolo vai mais longe do que o acto, explica cada um dos nossos actos em termos de mecânica eterna (p. 115)


Uma vez na minha vida fiz mais, ofereci às constelações o sacrifício de uma noite inteira[...] entreguei-me, do anoitecer à madrugada, àquele mundo de chama e de cristal. Foi a mais bela das minhas viagens. [...] conheci mais de um êxtase: há alguns atrozes e outros de uma perturbante doçura. [...] Mas a noite síria representa a minha parte consciente de imortalidade. (p. 117)

Varius multiplex multiformis (29-76)

O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que lançamos pela primeira vez um olhar inteligente sobre nós mesmos: minhas primeiras pátrias foram os livros. Em menor escala, as escolas. (p. 34)

os magísteres exerciam sobre os discípulos uma tirania que eu teria envergonhado de impor aos homens; cada um, encerrado nos estreitos limites do seu saber, desprezava os colegas que, tão estreitamentecomo eles, sabiam outra coisa. (p. 34)

Ensinaram-me a entrar alternadamente no pensamento de cada homem, a compreender que cada um se decide, vive e morre segundo as suas próprias leis. (p. 34)

Leotíquido [...] ensinou-me as preferir as coisas às palavras, a desconfiar das fórmulas, a observar de preferência a julgar. Este grego ensinou-me o método. (p. 36)

Pertencia a esse tipo de espíritos, tão raros, que, possuindo a fundo uma especialidade, vendo-a por assim dizer de dentro e de um ponto de vista inacessível aos profanos, conservam contudo o sentido do valor relativo na ordem das coisas e a medem em termos humanos. [...] nunca hesitava perante inovações úteis. (p. 38)

Há poucos a quem não possa ensinar-se convenientemente alguma coisa. O nosso grande erro é querer encontrar em cada um, em especial, as virtudes que ele não tem, e desinteressarmo-nos precisamente de cultivar todas aquelas que ele possui. (p. 40)

Serviano deveria ter compreendido que se não impede tão facilmente um homem resoluto de continuar o seu caminho, a não ser que se vá até o assassinato. (p. 46)

(Trajano, imperador romano) Tinha encarado as minhas loucuras de rapaz com uma indignação que não era absolutamente injustificada, mas que só se encontra em família; as minhas dívidas escandalizavam-no, aliás, muito mais que os meus desatinos. Outros traços meus o inquietavam; pouco culto, tinha pelos filósofos e pelos letrados um respeito comovente, mas admirar de longe os grandes filósofos é uma coisa e ter a seu lado um jovem tenente com demasiado verniz de literatura é outra. Não sabendo onde se situavam os meus princípios, os meus limites, os meus travões, supunha-me desprovido e sem recursos contra mim mesmo. (p. 46-47)

a maior parte das minhas pretensas proezas não passava de bravatas inúteis [...] misturado com a exaltação quase sagrada [...] o meu baixo desejo de agradar fosse por que preço fosse e de chamar a atenção sobre mim. (p. 49)

Um ser embriagado de vida não prevê a morte; ela não existe; ele nega-a em cada um dos seus gestos [...] ela não é para ele mais que um choque ou um espasmo (p. 49)

Trajano enfiou-me no dedo o anel de diamantes que ele recebera de Nera e que continuava a ser mais ou menos o sinal da sucessão no poder. Nessa noite adormeci contente. (p. 50)

Havia perdido uma grande parte do meu ignóbil medo de desagradar [...] o meu tempo de braceletes e perfumes tinha passado. (p. 51)


sozinho no meu quarto, ensaiando os meus efeitos diante de um espelho, sentia-me um imperador (p. 52)

Um homem que lê, ou que pensa, ou que calcula, pertence à espécie e não ao sexo; nos seus melhores momentos escapa mesmo ao humano. (p. 55)

Sobre a mulher velha Reencontava o círculo estreito das mulheres, o seu duro sentido prático e o seu céu cinzento desde que o amor já lhe não dá esplendor (p.55)

Previa o futuro com bastante exactidão, coisa possível, aliás, quando se está informado acerca de um bom número de elementos relativos ao presente (p.67)

Sobre Plotina  A amizade era para ela uma eleição em que se empenhava por completo, entregava-se-lhe absolutamente [...] A intimidade dos corpos, que nunca existiu entre nós, foi compensada pelo contacto de dois espíritos estritamente identificados um com o outro (p. 68)

As minhas apreensões subsistiam, mas eu dissimulava-as como se fossem crimes; ter razão cedo demais é errar. (p. 69)

Os Judeus e os Árabes tinham desde o princípio feito causa comum contra uma guerra que ameaçava arruinar o seu negócio; mas Israel aproveitava-se disso para se lançar contra um mundo de que era excluído pelos seus furores religiosos, os seus ritos singulares e a intransigência do seu Deus (p. 70)

Sobre os 40 anos  naquela idade, eu não existia senão aos meu próprios olhos e aos daqueles amigos que deviam por vezes duvidar de mim como eu próprio duvidava. Compreendi que poucos homens se realizam antes de morrar [...] Essa obsessão de uma vida frustrada imobilizava-me o pensamento num ponto, fixava-o como um abcesso. (p. 71)

Era ainda o tempo em que ele (Trajano) não duvidava da vitória, mas, pela primeira vez, sentiu-se esmagado pela imensidade do mundo, o sentimento da idade e dos limites que nos encerram a todos (p. 72)
Quantos velhos obstinados morrem sem testamento. Para eles, trata-se menos de conservar até o fim o seu tesouro ou seu império já meio desligados dos seus dedos entorpecidos, que de se não instalar demasiado cedo no estado póstumo de um homem que já não tem decisões a tomar, surpresas a causar, ameaças ou promessas a fazer aos vivos. (p. 73)

Anima vagula blandula (9-28)



Encontrei de novo num volume da correspondência de Flaubert, muito lido e sublinhado por mim pouco mais ou menos em 1927, a frase inesquecível: «Não existindo já os deuses e não existindo ainda Cristo, houve, de Cícero a Marco Aurélio, um momento único em que só existiu o homem». Uma grande parte da minha vida ia passar-se a definir, depois de escrever, esse homem sozinho e aliás ligado a tudo. (sublinhados meus)

in Apontamentos sobre as Memórias de Adriano, Marguerite Yourcenar (p.225)




É difícil permanecer imperador na presença de um médico e difícil também conservar a qualidade de homem.(p.11)

Veio-me esta manhã, pela primeira vez, a ideia de que o meu corpo, este fiel companheiro, este amigo mais seguro, melhor conhecido por mim que a minha alma, não passa de um monstro dissimulado, que acabará por devorar o seu dono. Basta... Amo o meu corpo; serviu-me bem e de todas as maneiras, e não lhe regateio os cuidados necessários. (p.11)


(Velhice, Morte) Este fim tão próximo não é necessariamente imediato (p. 12)


Não deixo por isso de ter chegado à idade em que a vida se torna, para cada homem, uma derrota aceite (p.12)


Certas fracções da minha vida assemelham-se já a salas desguarnecidas de um palácio demasiadamente vasto que um proprietário empobrecido renuncia a ocupar todo. (p. 13)


(Vida na metáfora da caça) adolescente, a caça ao javali [...] primeiras possibilidades de encontro com o comando e o perigo [...] experiência da morte, da coragem, da piedade pelas criaturas e do prazer trágico de as ver sofrer. Homem feito, a caça repousava-me de muitas lutas secretas com adversários umas vezes demasiado espertos ou demasiado obtusos, outras vezes demasiado fracos ou demasiado fortes para mim. [...] Imperador [...] serviram-me para avaliar a coragem ou os recursos dos altos funcionários [...] Mais tarde [...] fiz das grandes batidas um pretexto de festa, (p,13)


Assim, de cada arte praticada no seu tempo, tiro um conhecimento que me compensa em parte dos prazeres perdidos (p.13)


Empanturrar-se em certos dias de festa foi sempre a ambição, a alegria e o orgulho natural dos pobres. (p.15)


Comer um fruto é fazer entrar em si próprio um belo objecto vivo, estranho, alimentado e favorecido como nós pela terra; é consumar um sacrifício em que nos preferimos às coisas. (p.15)


A carne cozida nas noites das caçadas tinha também essa qualidade quase sacramental [...] a água bebida na concha da mão ou mesmo na nascente faz correr em nós o mais secreto sal da terra e a chuva do céu. (p.16)

Quanto aos escrúpulos religiosos […] nos períodos de jejum ritual, por exemplo, ou no decorrer das iniciações religiosas, conheci as vantagens que têm para o espírito, e os perigos também, as diferentes formas de abstinência ou mesmo de inanição voluntária, esses estádios próximos da vertigem em que o corpo, em parte deslastrado, entra num mundo para o qual não é feito e que prefigura as frias levezas da morte. Noutras ocasiões essas experiências permitiram-me apreciar a ideia do suicídio progressivo, da morte por inanição que foi a de alguns filósofos, espécie de deboche negativo em que se vai até ao esgotamento da substância humana. Mas desagradou-me sempre aderir totalmente a um sistema, e não teria querido que um escrúpulo me roubasse o direito de me empanzinar de salsicharia se por acaso me apetecesse ou se esse alimento fosse o único fácil de obter.

Os cínicos e os moralistas estão de acordo quanto a colocar as voluptuosidades do amor entre os prazeres ditos grosseiros […] Do moralista espero tudo, mas espanta-me que o cínico se engane nesse ponto. Admitamos que uns e outros tenham medo dos seus demónios, quer lhes resistam, quer se lhes abandonem, e se esforcem por aviltar o seu prazer, a fim de lhes tirar o poder quase terrível, ao qual sucumbem, e o seu estranho mistério, em que se sentem perdidos. Acreditaria nesta assimilação do amor às alegrias puramente físicas […] no dia em que visse um apreciador de bons petiscos soluçar de delícia diante do seu rato favorito, como um amante encostado a um ombro juvenil. De todos os nossos jogos é o único que pode perturbar a alma, o único também em que o jogador se abandona necessariamente ao delírio do corpo. […] a abstinência ou o excesso não aliciam senão o homem só […] o procedimento sensual nos coloca em presença do Outro, nos implica nas exigências e nas servidões da escolha. (p. 17-18)

As palavras enganam, visto que esta – prazer – esconde realidades contraditórias, comporta ao mesmo tempo as noções de tepidez, doçura, intimidade de corpos, e as de violência, agonia e grito. (p. 18)

Amor uma forma de iniciação, um dos pontos em que o secreto e o sagrado se encontram. (p. 18)

o nosso amor arrasta-nos para um universo diferente, onde, noutros tempos, nos era interdito entrar onde deixamos de nos orientar desde que o ardor se extingue ou que o prazer se desenlaça. (p. 19)

só disponho de três meios para avaliar a existência humana: o estudo de nós próprios, o mais difícil e o mais perigoso, mas também o mais fecundo dos métodos; a observação dos homens, que na maior parte dos casos fazem tudo para nos esconder os seus segredos ou para nos convencer de que os têm; os livros, com os erros particulares de perspectiva que nascem entre as suas linhas. [...] Lucano, tornam-na (a vida) mais pesada e obstruída com uma solenidade que ela não tem. Outros [...] como Petrónio, aligeiram-na, fazem dela uma bola saltitante e vazia, [...] Os poetas transportam-nos a um mundo mais vasto ou mais belo, mais ardente ou mais doce que este que nos é dado, por isso mesmo diferente e praticamente quase inabitável. Os filósofos, para poderem estudar a realidade pura, submetem-na quase às mesmas transformações a que o fogo ou o pilão submetem os corpos: coisa alguma de um ser ou de um facto, tal como nós o conhecemos, parece subsistir nesses cristais ou nessas cinzas. Os historiadores apresentam-nos, do passado, sistemas excessivamente completos, séries de causas e efeitos exactos e claros de mais para terem sido alguma vez inteiramente verdadeiros [...] Os narradores, os autores de fábulas milésias, não fazem mais, como os carniceiros, que pendurar no açougue pequenos bocados de carne apreciados pelas moscas. Adaptar-me-ia muito mal a um mundo sem livros; mas a realidade não está lá, porque eles a não contêm inteira.(p.24)

estes dois processos de conhecimento são difíceis e requerem, um, uma penetração no nosso íntimo, outro, uma saída de nós mesmos. (p. 26)

Mas repugna ao ser humano aceitar-se das mãos do acaso, não ser mais do que o produto passageiro de probabilidades a que nenhum deus preside, nem sobretudo ele próprio […]
passa-se à procura das razões de existir, […] Foi a minha impotência para os descobrir que me fez, por vezes, inclinar para as explicações mágicas, procurar nos delírios do oculto o que o senso comum não me dava. Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros. (p. 28)